VII

Os arqutipos do inconsciente coletivo

 O trabalho que agora temos pela frente  elevar as relaes 141 j compreendidas ao nvel do objeto para o nvel do 
sujeito. Com essa finalidade, temos que libert-las do objeto e consider-las como representaes simblicas de complexos 
subjetivos da paciente. Logo, ao tentarmos interpretar a figura de X ao nvel do sujeito, temos que conceb-la de certa 
forma como personificao de uma parte da alma, ou seja, de um determinado aspecto da sonhadora. X torna-se nesse caso 
uma imagem daquilo que a paciente gostaria de ser e ao mesmo tempo rejeita. X representa, portanto, uma futura imagem 
unilateral do carter da paciente. O artista de qualidades sinistras se deixa. elevar de imediato ao nvel do sujeito, j que o 
elemento dom artstico, adormecido na paciente, est preenchido 
) por X. Teramos razo em dizer que o artista  a imagem do masculino, no conscientizado pela paciente, e que, por este 
motivo, fica no inconsciente. Tanto isto  verdade que a cliente est realmente equivocada em relao a si mesma a esse 
respeito. Acha-se uma pessoa particularmente delicada, sensvel e feminina; nem um pouco masculina. Por isso reagiu com 
irritao e surpresa, quando pela primeira vez lhe chamei a ateno para os seus traos masculinos. Todavia, o fator 
assombro fascnio no condiz com os traos masculinos que encontramos nela.  primeira vista este aspecto est 
completamente ausente. Mas, a despeito disso, tem que estar em algum lugar, pois foi ela mesma que produziu essa 
sensao. 
Quando o aspecto procurado no pode ser encontrado di- 
retamente no sonhador, ento (diz a experincia), sempre  
) projetado. Mas em quem? Estar no artista? A cliente no o 
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via h muito tempo.  improvvel que ele tenha levado a projeo consigo, uma vez que a mesma est 
ancorada no inconsciente da paciente. Alm do mais, no tivera nenhuma relao pessoal com esse homem, 
apesar do fascnio que ele exercia sobre ela. No caso, tratava-se mais de uma fantasia. No, semelhante 
projeo  sempre atual, quer dizer,  preciso que haja algum, em algum lugar, que esteja recebendo a projeo 
desse contedo. Caso contrrio, ela o sentiria dentro de si. 
 Retornamos ao nvel do objeto; pois no h outro jeito de encontrar essa projeo. A paciente no conhece 
homem algum que seja importante para ela, afora eu mesmo, que, sendo seu mdico, muito significo. Logo, 
supe-se que tenha projetado esse contedo em mim. No entanto, at esse momento, eu nada percebera. Mas 
os elementos sofisticados nunca aparecem s claras. Sempre vm  tona fora dos horrios da sesso. Por isso, 
perguntei com toda cautela: Diga-me, como  que a senhora me v, quando no estou a seu lado? Sou sempre 
o mesmo? Ela: aQ..do estou aqui com o senhor, acho-o bem agradvel, mas quando estou sozinha, ou quando 
deixo de v-lo por algum tempo, a sua imagem se modifica; s vezes torna-se estranho. Ora vejo-o inteiramente 
idealizado, ora, bem diferente. Neste ponto, interrompeu-se. Ajudei: Sei; como  que ? Ela: s vezes o 
senhor me parece perigoso, sinistro, como um feiticeiro mau, ou um demnio. Nem sei como posso pensar 
essas coisas! O senhor no  assim. . . 
Pronto. A estava a transferncia. O contedo estava em mim, e por isso, ausente do inventrio de sua a]ma. 
Assim fizemos o reconhecimento de mais um ponto essencial. Eu estava contaminado (identificado) com o 
artista. Em sua fantasia inconsciente, ela estava diante de mim, no papel de X. Foi fcil provar-lhe, recorrendo 
aos materiais previamente descobertos (fantasias sexuais). Mas, nesse caso, eu tambm sou o obstculo  o 
caranguejo que a impede de atravessar. Se nos limitssemos ao nvel do objeto, seria difcil encontrar uma 
soluo. De que adiantaria, se eu declarasse: Mas no tenho nada a ver com esse artista; no sou sinistro, 
nem bruxo, nem nada? A paciente no ligaria a mnima, pois sabe disso to bem quanto eu. A projeo no se 
alteraria; o verdadeiro obstculo ao prosseguimento da anlise era eu. 
Chegado a este ponto, muito tratamento empaca. Pois no h outro modo de escapar das guarras do 
inconsciente, a no ser que o mdico se coloque pessoaimente ao nvel do sujeito, 
isto , se decida por uma imagem. Uma imagem do qu? A  que est a maior dificuldade. Ora, dir o mdico, 
uma imagem de alguma coisa que est no inconsciente da paciente 
 e ela responder: O qu? Homem? Eu? E ainda mais um homem tenebroso, mal assombrado, bruxo perverso, 
demnio9 Nunca, jamais! ah! no, essa no! Que grande asneira! Quem pode ser tudo isso,  o senhor! E com 
razo reagir assim. Seria um absurdo grande demais querer transferir tais coisas para a sua pessoa. No pode 
permitir que a transformem em demnio; nem tampouco o mdico. Nos seus olhos perpassa uma fasca; no 
rosto, uma expresso zangada, num lampejo de resistncia desconhecida, nunca vista. Por um instante chego a 
recear um lamentvel desencontro. Que ser? Uma decepo amorosa? Sente-se ofendida, desvalorizada? Por 
trs de seu olhar espreita a fera, algo de realmente demonaco. Ser mesmo um demnio? Ou sou eu essa fera 
ou demnio diante da vtima aterrorizada, que procura defender-se do meu feitio mau, com todas as foras 
animais do desespero? Quem sabe tudo isso  uma tolice, uma fantstica obsesso. Em que fui mexer? H uma 
nova corda a vibrar? Mas tudo no passa de um momento. O rosto da paciente readquire sua expresso 
tranqila e, como que aliviada, ela diz:  estranho  tive agora a sensao de que o senhor tocou no ponto; 
naquilo que nunca consegui superar em relao a minha amiga.  uma sensao terrvel, uma coisa desumana, 
m, perversa. Uma sensao difcil de descrever de to medonha e que, no momento, me enche de dio e 
desprezo pela minha amiga, e que no consigo evitar, apesar do enorme esforo que fao. 
Essas palavras do sentido ao que se passou Assumi o lugar da amiga. A amiga est superada. O gelo da 
represso foi rompido. A paciente entrou numa nova fase de sua existncia, sem saber. Sei perfeitamente que 
agora tudo o que havia de doloroso e ruim na relao com a amiga vai cair em cima de mim; o que havia de 
bom, tambm, certamente, mas Do mais violento conflito com a misteriosa incgnita que a paciente nunca 
conseguira superar. Entramos numa nova fase da transferncia. Ainda no transparecem indcios claros do que 
poderia ser o X projetado em mim. 
Uma coisa est certa: se a cliente empacar nessa forma de transferncia, corre-se o risco dos piores 
desentendimentos, POIS ter que tratar-me como tratava a amiga, e o X vai estar Sempre por a, pondo 
equvocos em tudo. E vai acontecer o 
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seguinte: vai ver o demnio em mim, porque no ser capaz de aceitar que a coisa est nela. Assim so 
produzidos todos os conflitos insolveis. Um conflito insolvel significa, antes de mais nada, estancamento da 
vida. 
 Haveria ainda outra possibilidade: a paciente aplica seus velhos meios de defesa contra essa nova dificuldade, 
sem fazer caso do X misterioso, isto , reprime de novo, em vez de manter-se consciente, o que  condio 
bsica, indispensvel ao mtodo. Nada se ganha com isso. Muito pelo contrrio, pois agora a ameaa vem do 
inconsciente, e isso  bem pior. 
 Cada vez que surgir uma rejeio desse tipo,  preciso verificar se se trata realmente de uma qualidade pessoal 
ou no. Feiticeiro e demnio poderiam representar qualidades que, logo se v, no caracterizam 
qualidades humanas, pessoais, mas mitolgicas. Feiticeiros e demnios so figuras mitolgicas, 
que exprimem a sensao desconhecida, desumana que se apoderou da paciente. Logo, esses atributos no 
so imputveis a uma pessoa humana, apesar de geralmente serem projetados em outras pessoas, na forma de 
juzos intuitivos, sem comprovao crtica e sempre em prejuzo da relao humana. 
 Tais atributos sempre indicam que so contedos projetados cio inconsciente suprapessoal 
ou coletivo. Porque demnios no so reminiscncias pessoais, nem tampouco maus feiticeiros, muito 
embora todo mundo j tenha lido ou ouvido estrias a respeito. O fato de se ter ouvido falar de cascavis no 
vai afetar-nos a ponto de pensarmos imediatamente em cascavis, quando uma lagartixa nos assustar com seu 
rudo. Da mesma forma, no podemos dizer de qualquer pessoa que ela  um demnio, a no ser que coisas 
malficas estejam ligadas a ela. Mas se isso fosse um aspecto real do carter da pessoa, ele seria mostrado 
abertamente, e essa pessoa seria verdadeiramente um demnio, uma espcie de lobisomem. Mas isso  
mitologia-psique coletiva e no individual. Na medida em que fazemos parte da psique coletiva histrica, 
atravs do nosso inconsciente,  natural que vivamos inconscientemente num mundo de lobisomens, 
demnios, feiticeiros e tudo mais, porque, antes de ns, em todos os tempos, essas coisas afetaram o mundo 
violentamente. assim que tambm temos parte com os deuses e os demnios, com os santos e os facinoras. No 
entanto, seria a maior insensatez atribuir-se essas potencialidades, existentes no inconsciente. Por isso  de 
rigor estabelecer-se a separao mais aguda possvel entre o que  
de responsabilidade pessoal e o impessoal. bvio que isso no significa, em absoluto, negar a existncia, 
talvez extrema. mente ativa, dos contedos do inconsciente coletivo. Mas na qualidade de contedos do 
inconsciente coletivo, confrontam-se com a psique individual e diferenciam-se dela. Naturalmente, essas 
coisas nunca foram separadas na conscincia individual do homem ingnuo porque os deuses, os demnios, 
etc. no eram compreendidos por ele como projees da alma, como contedos do inconsciente, mas como 
realidades indiscutveis. S a partir do Iluminjsmo  que se passou a negar a existneia real dos deuses e a 
considei-.los como projees. Foi o fim dos deuses, mas no da funo psquica correspondente, que ficou 
reprimida no inconsciente. Isso fez com que o prprio homem ficasse intoxicado por um excesso de libido, 
antes aplicada ao culto da imagem divina. A desvalorizao e represso de uma funo to importante como a 
religiosa tem, naturalmente, enormes repercusses na psicologia do indivfduo. Pelo refluxo dessa libido, o 
inconsciente se fortalece extraordinariamente, passando a exercer uma influncia colossal sobre a conscincia, 
atravs dos seus contedos arcaicos coletivos, O perodo do Iluminismo encerrou-se, como  sabido, com os 
horrores da Revoluo Francesa. Nos dias de hoje, estamos presenciando novamente ao levante das foras 
destrutivas inconscientes da psique coletiva, O resultado foi um morticnio em massa, sem precedentes, 2 Pois o 
que o inconsciente buscava era exatamente isso. Na fase precedente, a posio do inconsciente tinha sido 
indevidamente fortalecida pelo racionalismo da vida moderna, que desvalorizava tudo quanto era irracional, e 
submergindo, assim, a funo do irracional no inconsciente. Uma vez que esta funo passe para o 
inconsciente, sua ao torna-se to devastadora e irresistvel como uma doena incurvel, cujo foco no pode 
ser extirpado, porque  invisvel. E isso compele o indivduo ou o povo a viver a irracionalidade No s a viv-
la, como a aplicar todo o seu idealismo, todo o seu engenho para tornar a loucura da irracionalidade to 
perfeita quanto possvel. Em escala menor,  o que podemos obser. var na nossa paciente, que fugia da opo 
de vida que lhe parecia irracional (a amiga X), para viver o mesmo, patologicamente, na relao conflituada com 
a amiga. 
No h outra soluo a no ser reconhecer o irracional Como juno psquica necessria porque 
sempre presente, e 
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considerar os seus contedos, no como realidades concretas (o que seria um retrocesso!), mas como 
realidades psquicas 
 realidades, uma vez que so atuantes, isto , verdadeiras. O inconsciente coletivo  uma figurao do 
mundo, representando a um s tempo a sedimentao multimilenar da experincia. Com o correr do tempo, 
foram-se definindo certos traos nessa figurao. So os denominados arqutipos ou dominantes  os 
dominadores, os deuses, isto , configuraes das leis dominantes e dos princpios que se repetem com 
regularidade  medida que se sucedem as figuraes, as quais so continuamente revividas pela alma. Na 
medida em que essas figuraes so retratos relativamente fiis dos acontecimentos psquicos, os seus 
arqutipos, ou melhor, as caractersticas gerais que se destacam no conjunto das repeties de experincias 
semelhantes, tambm correspondem a certas caractersticas gerais de ordem fsica. Este  o motivo pelo qual  
possvel transferir figuraes arquetpicas, como conceitos ilustrativos da experincia diretamente ao 
fenmeno fsico  ao ter, o elemento arcaico do sopro ou da aliia, representado na imaginao geral, ou  
energia, a fora mgica  outra idia universalmente difundida. 
 Devido ao seu parentesco com as coisas fsicas, os arqutipos quase sempre se apresentam em forma de 
projees, e quando estas so inconscientes, manifestam-se nas pessoas com quem se convive, subestimando 
ou sobre-estimando-as, provocando desentendimentos, discrdias, fanatismos e loucuras de todo tipo. No  
outra a razo pela qual se diz que fulano endeusou sicrano ou fulano de tal  a bte noire de X. Esta  a 
origem dos mitos modernos, em outras palavras, dos boatos fantsticos, das mil e uma desconfianas e 
preconceitos. Os arqutipos so, portanto, coisas extremamente importantes, de efeito considervel, e que 
merecem toda a nossa ateno. No devem ser simplesmente reprimidos, mas, devido ao perigo de 
contaminao psquica, convm lev-los muito a srio. Como quase sempre se aprensentam sob a forma de 
projees, e estas s so possveis quando algum as recebe, avaliar e julg-las  extremamente difcil. Pois 
bem, se algum projeta o diabo no outro,  porque essa pessoa tem algo em si que possibilita 

a fixao da imagem. Mas nem por isso essa pessoa tem que ser um diabo. Muito pelo contrrio. Pode at ser 
uma pessoa bonfssma, mas  incompatvel com a pessoa que projeta, o que tem sobre elas um efeito 
diablico (isto , separador), Nem a pessoa que projeta precisa ser diabo (embora deva reconhecer que 
dentro dela o diablico tambm existe) como ainda por cima foi enganada por ele, uma vez que o projeta. Mas 
nem por isso  diablica pode ser uma pessoa to correta quanto a outra. Surgindo o diabo, isso signjfica 
que essas duas pessoas so incompativeis (pelo menos agora e num futuro prximo), razo pela qual o 
inconsciente provoca uma ruptura, afastando-as uma da outra. O diabo  uma variante do arqutipo da sombra, 
isto , do aspecto perigoso da metade obscura, no reconhecida pela pessoa. 
Outro arqutipo, com o qual deparamos quase que regularmente nas projees de contedos coletivos do 
inconsciente,  o demnio mgico, de efeito predozninantemente sinistro Bons exemplos so os 
personagens de Meyrink: o Golem, ou 
o feiticeiro tibetano de Fledermusen (Morcegos), que desencadeia a guerra mundial pela magia. 
Evidentemente Meyrinh no aprendeu isso comigo. Foi uma produo espontnea do seu inconsciente, que 
deu forma e palavra a uma sensao semelhante  que a minha paciente projetara em mim. O tipo feiticeiro 
tambm aparece no Zaratustra; no Fausto,  o prprio heri. 
A imagem desse demnio deve pertencer a um dos estgios mais elementares e arcaicos do conceito de deus. 
 o tipo do primitivo feiticeiro da tribo ou xam, personalidade dotada de poderes excepcionais, carregada de 
fora mgica. Freqentemente aparece como uma figura de pele escura, de tipo mongolide, quando 
representa um aspecto negativo, eventua]mente perigoso. s vezes  difcil, quase impossvel, diferenciar 
essa figura da sombra; mas quanto mais dominante for a nota mgica, mais fcil a diferenciao, Isso no  de 
pouca importricia, visto que pode revestir-se do aspecto muito positivo do velho sbio. 
O conhecimento dos arqutipos significa um avano importante. o efeito mgico ou demonaco sobre a 
pessoa do outro 
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desaparece, porque a sensao perturbadora  restituida a uma dimenso definitiva do inconsciente coletivo. 
Em compensao, -nos proposta uma tarefa totalmente nova: a questo de como e de que maneira o eu deve 
lidar com esse no-eu psicolgico. Ser que basta constatar a existncia atuante dos arqutipos, abandonando 
o resto a prpria sorte? 
 Assim criaramos um estado de dissociao permanente, isto , uma ciso entre a psique individual e a psique 
coletiva. De um lado, teramos o eu diferenciado e moderno, de outro, uma espcie de cultura negra, um estado 
primitivo. O estado real e atual das coisas ficaria assim exposto a uma ntida separao: por cima, a crosta da 
civilizao, por baixo a besta de pele escura. Tal dissociao exige contudo uma sntese imediata, e o 
desenvolvimento daquilo que no est desenvolvido. imprescindvel reunificar essas duas partes; em caso 
contrrio, no haveria dvida quanto ao resultado: o inevitvel aniquilamento do primitivo, pela represso. O 
nico meio de evit4o  que uma religio vlida, ainda viva, proporcione condies satisfatrias para que o 
homem primitivo se exprima atravs de uma simbologia fartamente desenvolvida. Em seus dogmas e ritos, essa 
religio necessita de imaginao e ao, inspiradas no que h de mais arcaico. Isso se d no catolicismo:  sua 
maior fora, mas tambm o seu maior perigo. 
 Antes de entrar na nova questo da reunificao, voltemos ao sonho que nos serviu de base. Essa explanao 
deu-nos uma melhor compreenso do mesmo, sobretudo de uma de suas partes essenciais: o medo. Esse 
medo  um medo arcaico dos contedos do inconsciente coletivo. Vimos que a identificao da cliente com X 
revela simultaneamente sua relao com o artista que a perturba. Ficou demonstrado que o mdico foi 
identificado com o artista e, alm disso, passando ao nvel do sujeito, eu era uma imagem da figura do feiticeiro 
em seu inconsciente. 
 O smbolo do caranguejo abrange tudo isso no sonho: o smbolo daquele que retrocede. O caranguejo  o 
contedo vivo do inconsciente, que no pode ser simplesmente esgotado ou anulado por uma anlise ao nvel 
do objeto. O que pudemos conseguir foi o desmembramento dos contedos mitolgicos da psique 
coletiva dos objetivos da conscincia e sua consolidao como realidades psquicas 
exteriores  psique individual. Atravs do ato do reconhecimento, estabelecemos a realidade dos 
arqutipos, ou mais exatamente, postulamos a existncia 
psquica desses contedos, com base no reconhecimento preciso constatar, xpressamente que no se trata 
unicamente de contedos reconhecveis mas de sistemas psquicos trans-subjetivos, amplamente autnomos, 
e portanto submetidos s muito condjcionalmente ao controle do consciente e provavelmente at lhe 
escapando, em grande medida. 
Enquanto o inconsciente coletivo, indiferenciado, ficar acopiado  psique individual, nenhum progresso se 
far, nem a fronteira ser transposta  para usar a linguagem do sonho. Mas se a sonhadora se dispe a 
atravessar a linha fronteiria, 
o que antes era inconsciente se agita, agarra-a e a retm, O sonho e seu material caracterizam o inconsciente 
coletivo, por um lado, como um animal rasteiro que vive escondido no fundo da gua, e por outro, como uma 
doena perigosa que, quando operada a tempo, pode ser curada. J foi visto a que ponto essa caracterizao  
exata. PrincipaInte o smbolo do animal aponta, como j dissemos, para o extra-humano, para o suprape pois 
OS contedos do inconsciente coletivo so, no s os resduos de modos arcaicos de funes especifica. 
mente humanas, como tambm os resduos das funes da sucesso de antepassados animais do homem, cuja 
durao foi infinitamente maior do que a poca relativamente curta do existir especifjcamente humano. Tais 
resduos, ou  para usar a expresso de Semon  os engramas, quando ativos, tm a propriedade no s de 
interromper o desenvolvimento, como tambm de faz-lo regredir, enquanto no estiver consumida toda a 
energia ativada pelo inconsciente coletivo. Mas a energia ser recuperada, quando pudermos tomar 
conscincia dela pela confrontao consciente com o inconsciente coletivo. As religies estabeleceram de 
modo concretstjco esse circuito energtico, atravs da relao cultual com os deuses. Mas esta soluo fica 
fora de cogitao para ns por ser grande demais a sua contradio com o intelecto e sua moral de 
reconhecimento; alm disso foi, historicamente, totalmente superada pelo cristianismo Mas quando 
concebemos as figuras do inconsciente Como fenmenos ou funes da psique coletiva, no entramos em 
contradio com a conscincia intelectual, uma soluo 
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racionalmente aceitvel. Com isso adquirimos tambm a possibilidade de lidar com os resduos ativados da 
nossa histria antropolgica, o que permitir que se transponha a linha divisria anteriormente existente. Por 
isso, chamei-lhe funo transcendente (ver nmero 121), porque equivale a uma evoluo progressiva para 
uma nova atitude. 
 So ntidos os paralelos com o mito dos heris. O tpico combate do heri contra o monstro (o contedo 
inconsciente) trava-se, no raro,  margem da gua, ou tambm num vau, que  o caso dos mitos dos pele-
vermelha, conhecidos atravs do Hiawatlza de Longfellow. O heri sempre  engolido pelo monstro (tal 
como Jonas) na batalha decisiva. Isto foi mostrado por Frobenius, que coligiu considervel material a respeito. 
No interior do monstro, o heri comea a ajustar contas com ele. Enquanto o animal nada em direo ao 
Nascente, levando-o em seu bojo, o heri corta fora uma parte essencial das vsceras do monstro, como o 
corao, indispensvel  vida (a energia, essencial  ativao do inconsciente). Depois de matar o monstro, 
este  levado  deriva, at a terra firme; o heri sai, renascido depois da viagem noturna pelo mar  (funo 
transcendente), freqentemente acompanhado por todos aqueles que o monstro j havia devorado antes. 
Restabelece-se o estado normal anterior, pois o inconsciente, privado de sua energia, no ocupa mais uma 
posio preponderante. O mito ilustra, visualmente, o problema que preocupa a nossa paciente. 
 Aqui tenho que salientar um fato importante, que o leitor j deve ter notado: neste sonho, o inconsciente 
coletivo apresenta-se sob um aspecto negativo, como algo perigoso, prejudicial. O motivo  a vida da paciente, 
tumultuada de fantasias, que a sufocam de tanta exuberncia, o que deve estar relacionado com seus dons de 
escritora, O exagero da fantasia, contudo,  sintoma de doena: a paciente se detm excessivamente no 
fantstico, deixando a vida real passar ao largo. Um acrscimo de mitologia at seria perigoso para ela, porque 
ainda no viveu uma boa parte da vida exterior. Ainda no viveu suficientemente a vida real para poder 
arriscar-se a uma inverso do ponto de vista. O inconsciente coletivo tomou-a de assalto e ameaava retir-la 
de uma realidade insatisfatoriamente preenchida. Em conformidade com o sentido do sonho, o inconsciente 
coletivo devia ser-lhe apresentado como algo de perigoso pois, caso contrrio, de bom grado ela o teria 
escolhido como refgio contra as exigncias da vida. 
Na apreciao de um sonho  importantssimo notar como as figuras SO introduzidas, Assim, por exemplo, o 
caranguejo que personifica o inconsciente  negativo, na medida em que nada para trs, alm de prender a 
sonhadora no momento decisivo. Iludidos pelos mecanismos do sonho imaginados por Freud, como se 
fossem transposies, inverses e coisas semelhantes, acreditava-se que poderia ser o sonho interpretado 
independentemente de sua fachada, j que ela encobria os seus verdadeiros pensamentos. H muito tempo 
venho contra- pondo a esta posio o meu ponto de vista, de que no tem cabimento acusar o sonho de 
manobras como que para mistificar deliberadamente. Muitas vezes, a natureza  obscura, sem transparncia, 
mas ela no usa de artimanhas, como o homem. Por isso devemos acreditar que o sonho  exatamente o que 
deve ser, nem mais, nem menos : Quando representa alguma coisa em seu aspecto negativo, no h motivo 
para acreditar-se que isso deva ser interpretado no sentido positivo, ou coisa que o valha. O perigo 
representado pelo arqutipo no vau est to claro, que gostaramos de dar ao sonho quase que um carter de 
advertncia. Mas no posso aconselhar tais interpretaes antropomrficas: o sonho em si no tem 
inteno alguma. No passa de um contedo que se auto-representa, de uma simples coisa da natureza, como 
o acar no sangue do diabtico, ou a febre num doente atacado de tifo. Ns  que fazemos dele uma 
advertncia, quando somos capazes de interpretar inteligente e corretamente os sinais da natureza. 
Mas advertncia de qu? Parece que o perigo seria, no momento de atravessar, que o inconsciente tomasse 
conta da sonhadora. Mas o que significa isso? Nos momentos de modificaes e decises importantes,  fcil 
haver uma irrupo do inconsciente. A margem em que a sonhadora est, e pela qual se aproxima do riacho, 
representa sua situao atual, como a conhecemos. Esta situao levou-a a um impasse neurtico, como se 
houvesse atingido um obstculo invencvel, mas o obstculo  configurado no crrego transponvel, Logo, 
no parece ser to grave assim. Dentro do crrego, sem ser visto, 
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espreita o caranguejo, representando o perigo propriamente dito, o perigo que faz com que o crrego seja, ou 
parea ser intransponvel. Caso houvesse um aviso de que o caranguejo ameaador se encontrava naquele 
lugar, eventualmente poderia ter sido tentada a passagem em outro lugar, ou coisa parecida. Atravessar teria 
sido a coisa mais desejvel naquela situao precisa. Atravessar significa, por ora, transferir a situao antiga 
para o mdico. A novidade  esta. No seria um risco muito grande, no fosse a imprevisibilidade do 
inconsciente. Mas como vimos, a transferncia ameaava acionar figuras arquetipicas, imprevistas. Fizemos a 
conta do restaurante sem o patro  para metaforizar  j que nos esquecemos dos deuses. 
 Nossa sonhadora no  religiosa.  moderna. Da religio que lhe haviam ensinado quando menina, no restava 
mais nada. Ignora que h momentos em que os deuses interferem, ou que, desde os primrdios, certas 
situaes penetram nas mais insondveis profundezas. O amor pertence a esse tipo de situao, com toda 
sua paixo e perigo, O amor pode suscitar foras insuspeitadas na alma, contra as quais seria melhor nos 
precavermos. O problema que se coloca aqui  o da religio, que se prope a levar na maior considerao 
os perigos e poderes desconhecidos. De uma simples projeo pode nascer o amor, com todo o peso da 
fatalidade: uma iluso, um deslumbramento que poderiam arranc-la do ritmo normal de sua vida. A sonhadora 
 colhida pelo bem ou pelo mal, por um deus ou por um diabo? Sem o saber, ela j se sente entregue s mos 
do destino. E quem garante que ela agentar a complicao? At o momento, tudo fez para evitla, mas agora 
est prestes a agarr-la. Deveramos fugir desse risco, mas se tivermos que enfrent-lo s nos resta confiar em 
Deus ou ter f em que tudo corra bem. Assim se colocou, sem que se quisesse ou esperasse, a questo da 
atitude religiosa, frente ao destino. 
 Da maneira pela qual se configurou o sonho, no resta outra alternativa  sonhadora, seno tirar o p com 
todo o cuidado; pois seria fatal, se continuasse por esse caminho. Ainda no est em condies de abandonar 
a situao neurtica, uma vez que o sonho no contm indcios positivos que lhe permitam confiar em 
qualquer tipo de ajuda do inconsciente. As foras do inconsciente, pelo visto, ainda so pouco favorveis 
e esperam que a sonhadora prossiga no trabalho de aprofundar seu conhecimento, antes de tentar atravessar 
realmente. 
Com esse exemplo negativo, no pretendo dar a impresso de que o inconsciente sempre desempenha um 
papel negativo. Por isso, acrescento mais dois sonhos de um rapaz a que projetam sua luz sobre um lado 
diferente e mais favorvel do inconsciente. Fao-o com redobrado prazer, porque s  possvel resolver o 
problema dos contrrios, seguindo pelo caminho irracional, apontado pelas contribuies do inconsciente 
atravs dos sonhos. 
Primeiro, quero familiarizar o leitor com a pessoa do sonhador, sem o que seria difcil entrar na atmosfera 
peculiar dos sonhos. Existem sonhos que so pura poesia; portanto, s podem ser compreendidos dentro do 
seu clima geral, O sonhador  um rapaz de pouco mais de 20 anos e de aspecto bem infantil. Tem at mesmo um 
jeito de menina, tanto na aparncia quanto nas expresses, e que deixam transparecer a esmerada educao e 
cultura recebidas.  inteligente e so grandes os seus interesses intelectuais e estticos, O esttico coloca-se 
indiscutivelmente em primeiro plano. Percebemos imediatamente seu bom gosto e uma acurada compreenso 
por todas as formas de arte. Sensvel, sentimental, arrebatado devido ao seu carter adolescente e um tanto 
feminino. Nenhum sinal da grosseria prpria da puberdade.  incontestavelmente infantil para a sua idade; 
portanto, um caso de desenvolvimento retardado. Isso explica o homossexualismo, razo pela qual veio 
procurar-me. Na vspera da primeira consulta, teve o seguinte sonho: Estou numa catedral enorme; 
dizem que  a baslica de Lourdes. Uma penumbra misteriosa espalha-se por todo o 
santurio. No centro, um poo profundo. Deveria descer dentro dele. 
Como se v, o sonho exprime um clima coerente, O sonhador faz os seguintes comentrios a respeito: 
Lourdes  fonte mstica de curas.  claro que ontem eu estava pensando no tratamento que vou fazer com o 
senhor, no intuito de sarar. Parece que em Lourcies existe um poo assim. Provavelmente  desagradvel 
descer at essa gua. Mas o poo da igreja era muito fundo. 
Pois bem, qual a mensagem do sonho? Aparentemente,  de uma perfeita clareza. Poderamos contentar-nos 
com sua 
lOa. Estes sotihos tambm so comentados no livro Bedeutung des Unbewussten fr d,e Erziehung. Obras Completas, Vol. 17,  266ss. 
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interpretao como uma forma potica de exprimir a disposio do rapaz naquele dia. Mas nunca seria o 
bastante. Sabemos por experincia que os sonhos so muito mais profundos e significativos. Poderamos at 
pensar que o cliente procurou o mdico numa disposio potica e que inicioU o tratamento como quem entra 
num lugar sacrossanto, cheio de mistrio e misericrdia, para assistir a um ofcio divino. Mas isso no 
corresponde em absoluto  realidade dos fatos; tanto  que o cliente veio procurar o mdico nica e 
exclUSiVamente para tratar-se de uma coisa bem desagradvel, OU seja, do homossexualismo. Nada menos 
potico. Na hiptese de uma causalidade to direta para explicar a origem do sonho, o estado de esprito real 
da vspera no justificaria, em todo caso, um sonho to potico. Mas mesmo assim poderamos imaginar que 
foi por reao ao assunto extremamente antipotiCO que levou o rapaz a procurar a terapia, que ele teve tal 
sonho. Assim, o sonho mencionado seria to carregado de poesia, justamente devido a carncia potica da 
sua disposio da vspera; mais ou menos como algum que sonha com fartas refeies a noite, depois de ter 
jejuado o dia inteiro. No se pode negar que o sonho evoca o pensamento do tratamento, da cura, dos 
dissabores do processo  mas transfigurado em poesia, numa forma efetivamente condizente com a ardente 
necessidade esttica e emocional do sonhador. Ele ser inevitavelmente atrado por esse quadro convidativo, 
apesar da escurido e da glida profundidade do poo. Alguns vestgios da atmosfera desse sonho 
sobrevivero ao sono e perduraro at a manh do famigerado dia decumprir um dever to antipotiCo. As 
sensaes do sonho talvez dem um toque dourado  triste realidade. 
no Ser esta a finalidade cio sonho? No seria impossvel, pois, de acordo com a minha experincia, a grande 
maioria dos sonhos  de natureza compensatria. Eles sempre acentuam o outro lado, a fim de 
conservar o equilbrio da alma. A compensao do clima, porm, no  a nica finalidade da imagem do 
sonho. Ele tambm retifica a concepo do paciente. As idias que ele tem a respeito do tratamento so 
insuficientes. Mas o sonho d-lhe uma imagem que caracteriza, numa metfora potica, a natureza do 
tratamento a que vai submeter-se. Isso se torna evidente,  medida em que acompanhamos as associaes e 
observaes que ele faz a respeito da catedral. 
li O conceito da coinpeflsaO j foi amplamente utilizado por Alfred Adiei. 
A catedral, diz ele, me lembra a catedral de Colnia. Na minha infncia, essa catedral j me 
impressionava muito. Recordo-me que foi minha me quem primeiro me contou coisas a respeito. 
Lembro muito bem que, naquela poca, quando via uma  igreja de aldeia, perguntava se era a 
catedral de Colnia. Queria ser padre numa catedral dessas. 
Essas associaes referem-se a uma  experincia infantil extremamente importante para o paciente. 
Como em quase todos os casos desse tipo, ele tem uma profunda ligao afetiva com 
- me; no necessariamente uma relao consciente, boa e intensa, mas sim uma espcie de ligao 
secreta, subterrnea, que, em nvel consciente, se exterioriza apenas no desenvolvimento retardado do 
carter e num relativo infantilismo. O desenvolvimento da personalidade naturalmente faz presso contra 
a ligao inconsciente, infantil do jovem, pois no b obstaculo maior ao desenvolvimento do que a 
permanncia num estado inconsciente, psiquicamente embrionrio. Por isso, o instinto aproveita a primeira 
oportunidade para substituir a me por outro objeto. Em certo sentido, esse objeto precisa ter alguma 
analogia com a me, para que sirva realmente de substituto. o que acontece com o nosso cliente, sem tirar 
nem pr. A intensidade com que o smbolo da catedral de Colnia foi captada por sua fantasia infantil, 
corresponde a uma necessidade inconsciente, muito forte, de encontrar um substituto para a me. Nos 
casos em que a ligao infantil representa um risco prejudicial, esta necessidade  maior. Da o entusiasmo 
com que sua fantasia infantil acolhe a idia da igreja 
 igreja  me, em todos os sentidos, plenamente. A Santa Madre Igreja, o seio da Igreja, so 
expresses usuais. Na cerimnia da benedictio fontis da Igreja Catlica, a pia batLsmal  invocada 
como immaculatus divini fontis uterus (tero imaculado da fonte divina) - Talvez se acredite que  
preciso conhecer conscentemente tal significado para que ele se mnnifeste na fantasia, e que  
impossvel, para uma criana ignorante, ser tomada por ele. Mas essas analogias no atuam por vias 
conscientes, seus canais so outros. 
A igreja representa um substituto espiritual mais elevado para a ligao com os pais, que  apenas uma 
ligao natural, carnal, por assim dizer. Sua funo  libertar os indivduos de uma relao 
inconsciente, naturaL; para sermos exatos, no se trata propriamente de uma  relao, mas de um estado 
de ld1tidade inconsciente, inicial, arcaicoS A inconscincia impreg 94 
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na este estado de uma preguia sem igual, que ope grande resistncia a qualquer desenvolvimento espiritual 
mais elevado. Seria difcil dizer em que consiste a diferena fundamental entre um tal estado e a alma animal. 
Ora, no  prerrogativa e inteno da igreja crist libertar o indivduo desse seu primitivo estgio animalesco, 
mas ela  a forma moderna, especificamente ocidental, que responde a uma aspirao instintiva, to antiga, 
talvez, quanto a prpria humanidade. Essa aspirao se exprime das mais variadas formas, entre quase todos 
os primitivos, inclusive entre aqueles que, embora um pouco desenvolvidos, ainda no tornaram a degenerar: 
trata-se da instituio da iniciao ou sagrao do homem. O jovem que atinge a puberdade  conduzido  casa 
dos homens ou a qualquer outro local destinado  consagrao. L,  sitematicamente alienado da famlia.  
iniciado ao mesmo tempo nos segredos da religio, numa relao totalmente nova, revestido de uma 
personalidade nova e diferente,  introduzido num mundo novo, como um quasi modo genitus (como que 
renascido). A iniciao freqentemente implica toda uma gama de torturas, circunciso ou coisas do gnero. 
Esses costumes so, sem dvida, antiqussimos. J se tornaram quase que um mecanismo instintivo, tanto  
que encontram formas sempre novas de se reproduzirem, sem qualquer exigncia formalmente prescrita. Refiro-
me aos batismos estudantis, aos trotes de calouros, e a todos os excessos praticados pelos veteranos dos 
grmios estudantis americanos contra os novatos. Esses hbitos esto soterrados no inconsciente, em forma 
de imagem primordial. 
 A histria da catedral de Colnia, que a me contou ao garoto, tocou nessa imagem primordial, despertando-a 
para a vida. Mas no apareceu um sacerdote educador, que tivesse dado continuidade ao processo recm-
iniciado. Este permaneceu nas mos da me. O anseio pelo homem orientador deve ter desabrochado no 
menino, porm sob a forma de uma tendncia homossexual. Eventualmente, esta falha poderia ter sido evitada, 
se um homem tivesse cuidado do desenvolvimento de sua fantasia infantil. Ora, o desvio para o 
homossexualismo tem, na histria, numerosos exemplos. Na Grcia antiga, como em outras sociedades 
primitivas, homossexualismo e educao eram, por assim dizer, idnticos. Neste sentido, a homossexualidade 
da adolescncia  uma aspirao pelo homem, mal interpretada, mas nem por isso menos oportuna. Talvez 
tambm 
se possa afirmar que o medo do incesto, que se origina no complexo materno, torna-se extensivo a 
todas as mulheres. Contudo, na minha opinio, um homem imaturo tem toda a razo de temer as 
mulheres, pois, em geral, as suas relaes com elas so um fracasso. 
Segundo o sonho, comear o tratamento significa, para o paciente, realizar o verdadeiro sentido da 
sua homossexualidade, isto , introduzir-se no mundo do homem adulto. O sonho resumiu, em poucas 
e expressivas metforas, aquilo sobre o que estamos refletindo penosamente, demoradamente, numa 
tentativa de compreenso plena; e criou uma imagem atuante sobre a fantasia, sobre o sentimento e 
a compreenso do sonhador, incomparavejmente mais rica do que o tratado mais erudito. O sonho 
preparou o paciente para o tratamento melhor e com mais sentido do que a mais completa coleo 
de ensaios mdicos e educativos do mundo. (Por isso considero o sonho no s como uma fonte 
precios de informaes, mas tambm como um instrumento educativo e teraputico eficientsimo). 
Logo em seguida, meu cliente teve um segundo sonho. Antes de continuar, quero deixar claro que o 
sonho que acabamos de comentar no foi analisado na primeira consulta. Nem sequer foi 
mencionado. Nada foi dito que tivesse a mais remota relao com o que acabamos de dizer. O 
segundo sonho foi o seguinte: Estou dentro de uma enorme catedral gtica. No altar, est um 
padre, eu de p, diante dele. Tenho a meu lado um amigo, e nas mos, uma estatueta 
japonesa de marfim; tenho a sensao de que essa estatueta deve ser batizada. De repente 
aparece uma senhora de certa idade, tira o anel do grmio acadmico da mo de meu amigo 
e coloca-o em seu prprio dedo. Meu amigo tem medo de que isso o comprometa. Mas nesse 
momento ressoa o som maravilhoso de um rgo. 
S quero salientar aqui, rapidamente, os pontos que continuam e complementam o sonho anterior. 
Este segundo sonho  inegave1mene a continuao do primeiro. O sonhador encontra-se novamente 
dentro da igreja; logo, no estado propcio sagrao do homem. Juntou-se-lhe uma nova figura: a do 
padre, cuja ausncia observamo na situao anterior. O sonho diz o seguinte: O sentido inconsciente 
da sua homossexualidade foi preenchido; agora pode iniciar-se uma nova etapa de seu 
desenvolvimento A cerimnia da iniciao propriamente dita, 
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quer dizer, o batismo, pode ser iniciado. No simbolismo do sonho est confirmado o que eu dizia anteriormente: 
a realizao de tais transies e transformaes de alma no  prerrogativa da igreja crist, mas por detrs est 
uma imagem viva, arcaica, capaz de operar tais mutaes  fora. 
 O sonho indicava que o que devia ser batizado era uma estatueta japonesa de marfim. O paciente faz a 
seguinte observao a respeito: Era um homenzinho grotesco, que me lembra o rgo genital masculino.  
estranho que esse membro tivesse que ser batizado. Mas entre os judeus a circunciso  uma espcie de 
batismo. Deve ter alguma relao com o meu homossexualismo; pois o amigo que est comigo, ao p do altar,  
aquele com quem tenho a ligao homossexual. Ele est na mesma corporao acadmica que eu. O anel 
representa provavelmente essa ligao. 
 Na vida cotidiana, o anel  um sinal de unio ou de relao; todos sabem disso: basta pensar na aliana. 
Portanto, esse anel pode ser interpretado tranqilamente como uma metfora da relao homossexual; o fato 
do sonhador apresentar-se ao lado do amigo deve significar o mesmo. 
 Ora, o mal que se quer tratar  o homossexualismo. Com a ajuda do sacerdote, e por meio de uma espcie de 
cerimnia de circunciso, o sonhador h de transferir-se desse estado de relativa infantilidade para um estado 
adulto. Tais pensamentos correspondem exatamente s minhas reflexes acerca do sonho anterior. At a, com 
o recurso das imagens arquetpicas, o desenvolvimento estaria se processando, com lgica e sentido. Mas 
neste ponto algo vem atrapalhar, aparentemente. Uma senhora de certa idade apropria-se subitamente do anel 
da corporao. Em outras palavras, a partir deste incidente tudo que at ento era relao homossexual fica 
polarizado por ela. Isto faz com que o sonhador tenha medo de uma nova relao comprometedora. O anel 
passa para um dedo de mulher, o que significaria uma espcie de casamento, ou melhor, a relao homossexual 
teria evoluido para uma relao heterossexual, mas uma relao heterossexual um tanto estranha, pois trata-se 
de uma senhora de certa idade.  uma amiga da minha me, diz o paciente. Gosto muito dela; para dizer a 
verdade, ela  para mim uma amiga-me. 
 Por a podemos deduzir o que acontece no sonho. A sagrao faz com que a ligao homossexual seja 
desfeita, e em seu lugar se estabelea uma relao heterossexual; primeiro, uma 
amizade platnica com uma mulher de tipo maternal. Apesar da semelhana materna, essa mulher j no  a 
me. A relao significa, portanto, deixar a me para trs. Logo, uma superao parcial da homossexualidade 
adolescente. 
O medo da nova ligao  compreensvel. Primeiro, o medo da semelhana com a me poderia significar devido 
 dissoluo da relao homossexual uma total regresso  me; segundo, o medo do novo e do 
desconhecido, inerente ao estado adulto heterossexual, poderia acarretar conseqncias e responsabilidades, 
como casamento, etc. A msica do fim do sonho parece confirmar que no se trata de um retrocesso, mas de 
um avano. Pois o paciente  dotado de grande sentido musical e a solenidade do cirgo o emociona 
fortemente. A msica tem uma Coflotao muito positiva para ele, logo o fim do sonho  reconciliador, e essa 
sensao de beleza e solenidade se estende pela manh do dia seguinte. 
Se levarmos em considerao que at o momento desse sonho o meu cliente tinha tido uma nica sesso, e 
que essa consulta no passou de uma simples anamnese mdica geral, todos ho de reconhecer que esses 
dois sonhos foram antecipaes surpreendentes. A situao do paciente  iluminada por uma  luz estranha, 
alheia  conscincia, por um lado, e por outro, empresta  situao mdica, banal, um aspecto to ajustado s 
caractersticas espirituais do sonhador, a ponto de servir de vetor aos seus interesses estticos, intelectuais e 
religiosos. Isto criou as melhores perspectivas imaginveis para o tratamento. A significao desses sonhos 
nos d quase a impresso de que o paciente comeou o tratamento com a maior disponibffidatje, esperanoso, 
e pronto para desembaraar-se de sua infantilidade e transformar-se num homem. Na realidade, porm, no foi 
assim. O consciente estava cheio de hesitaes e resistncias;  medida em que prosseguia o tratamento, 
revelou-se rebelde e difcil, sempre pronto a reincidir na infantilidade antiga. Portanto, os sonhos estavam em 
estrita oposio ao comportamento consciente. Os sonhos so progressistas e tomam o partido do educador. 
Deixam transparecer claramente sua funo especfica. Esta funo foi por mim definida Como compensao. 
A progressjvjdade inconsciente e o atraso Consciente formam um par de contrrios, que 
equilibram, por assim dizer, os pratos da balana. O educador funciona como O fiel da balana. 
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 As imagens do inconsciente coletivo desempenham um papel extremamente positivo, no caso desse rapaz. 
Provavelmente devido ao fato de no apresentar a tendncia perigosa de regredir a um substitutivo fantstico 
para a realidade, dele fazendo uma trincheira contra a vida. H um qu de fatalidade no efeito das imagens 
inconscientes. Talvez  quem sabe!  esses quadros so o que chamamos de destino. 
 Naturalmente o arqutipo est agindo sempre e em toda parte. Mas o tratamento prtico nem sempre exige o 
aprofundamento desse aspecto, principalmente quando o paciente  jovem. No entanto, no momento da 
transio para a segunda metade da vida,  necessrio dar uma ateno toda especial s imagens do 
inconsciente coletivo; pois so elas que fornecem as pistas para a soluo do problema dos contrrios. Da 
elaborao consciente desses dados resulta a funo transcendente, enquanto formao de uma concepo 
que integra os contrrios, socorrendo-se dos arqutipos. Por concepo no pretendo designar apenas a 
compreenso intelectual, mas um compreender pela experincia. Como j dissemos, um arqutipo  um 
quadro dinmico, uma parte da psique objetiva, que s conseguimos entender corretamente quando 
vivenciada como uma coisa autnoma colocada fora de ns e  nossa frente. 
 No tem sentido teorizar a respeito desse processo, que pode ser muito demorado e mesmo que fosse possvel 
descrev-lo  bom saber que ele pode assumir formas que variam enormemente de caso para caso. A nica 
coisa que eles tm em comum  o aparecimento de determinados arqutipos. Menciono especialmente a 
sombra, o animal, o velho sbio, a Miima, o Animus, a me, a criana, alm de um nmero indefinido de 
arqutipos que representam situaes. Destacam-se os arqutipos que representam a meta ou as metas do 
processo evolutivo, O leitor interessado encontrar as necessrias informaes no captulo Traumsymbolen 
des Individuationsprozesses 12 (Simbolos onricos do processo de individuao), bem como em 
Psychologie un Religion (Psicologia e Religio), e no trabalho que publiquei juntamente com Richard 
Wilhelm: 
Das Geheimnis der goldenen Blte 13 (O Segredo da Flor de Ouro). 
 A funo transcendente no se desenvolve sem meta, mas conduz  revelao do essencial no homem. No 
incio no 
passa de um processo natural. H casos em que ela se desenvolve sem que tomemos conscincia, 
sem a nossa contribuio, e pode at impor-se  fora, contraiando a resistncia do indivduo. O 
sentido e a meta do processo so a realizao da personalidade originria, presente no 
germe embrionrio, em todos os seus aspectos.  o establecimento e o desabrochar da 
totalidade originria, potencial. Os simbolos utilizados pelo inconsciente para exprimi-la so os 
mesmos que a humanidade sempre empregou para exprimir a totalidade, a Integridade e a perfeio; 
em geral, esses simbolos so formas quaternrias e crculos. Chamei a esse processo de 
processo de indivicluao. 
Tomei o processo natural de inidividuao como modelo e diretriz para o meu mtodo de tratamento. 
A compensao inconsciente de um estado neurtico da conscincia contm todos os elementos 
que, quando conscientes, isto , quando compreendidos e integrados como realidades na conscincia, 
so capazes de corrigir eficaz e salutarmente a unilateralidade da conscincia. extremamente raro 
que um sonho atinja uma intensidade tal, que seu impacto derrote a conscincia. Geralmente, os 
sonhos so fracos e incompreensveis demais para exercerem uma influncia radical sobre a 
conscincia. Logo, a compensao passa-se no inconsciente, sem efeito imediato. Apesar disso, 
produz efeito, mas um efeito indireto: a oposio inconsciente, numa constante infrao, vai 
arranjando sintomas e situaes, que finalmente se contrapem sem cessar s intenes 
conscientes. No tratamento esforamo-nos, por conseguinte, por compreender e respeitar, na 
medida do possvel, os sonhos e demais manifestaes do inconsciente; por um lado, para evitar a 
formao de uma Oposio inconsciente, que, com o passar do tempo, pode tornar-se perigosa, e 
por outro, para utilizar, na medida do possvel, o fator curativo da compensao. 
Esse processo parte naturalmente do pressuposto de que o homem  capaz de atingir sua totalidade, 
isto , de que pode curar-se. Menciono esse pressuposto porque existem indivduos que, 
indubitavelmente no fundo, no so inteiramente aptos para viver e se aniquilam rapidamente, 
quando porventura se chocam com sua totalidade. Mas, quando isso no ocorre, sua vida transcorre 
at idade avanada, fragmentariarnen, a modo de personalidades parciais, auxiliados pelo 
parasitismo Social ou psquico. Para a infelicidade dos seus semelhantes, tais indivduos no passam 
freqentemente de grandes impos101 
tores, que encobrem o seu vazio mortal com uma bela aparncia. Querer trat-los pelo mtodo aqui descrito 
seria, desde o incio, uma tentativa v. O que ajuda nesses casos  manter as aparncias; pois a verdade 
sena insuportvel ou intil. 
No caso de um tratamento pelo mtodo aqui indicado, a orientao vem do inconsciente. A crtica, a escolha e 
a deciso ficam reservadas ao consciente. Se a deciso foi certa, a confirmao vem atravs dos sonhos que 
indicam progresso; se no foi, vem uma correo por parte do inconsciente. Assim sendo, o processo do 
tratamento  como que um dilogo ininterrupto com o inconsciente. Est implcito em tudo o que foi dito antes, 
que o papel principal cabe  interpretao correta dos sonhos. Mas quando  que podemos estar seguros de 
que acertamos na interpretao? Existe  ainda que de modo aproximativo  um critrio para sabermos se 
acertamos ou no? Felizmente podemos responder afirmativamente a esta pergunta. Quando erramos numa 
interpretao, ou quando a mesma ficou incompleta, j podemos perceb-lo, eventualmente, no sonho 
seguinte. Por exemplo, pela repetio mais ntida do tema anterior, ou por uma parfrase cheia de ironia, que 
desvirtua a nossa interpretao, ou ento, por uma oposio direta e vigorosa manifestada contra ela. Caso 
estas novas iaterpretaes tambm sejam falhas, a ausncia total de resultados e a inutilidade do nosso 
proceder sero logo sentidas no esvaziamento, na esterilidade e no absurdo do empreendimento. Tanto  que 
paciente e mdico vo sufocando de tdio, ou dvida. Assim como a interpretao certa  recompensada pela 
renovao da vitalidade, a errada  condenada pela deteno, pela resistncia, pela dvida e, principalmente, 
pela obstruo de ambos os lados.  bvio que tambm podem ocorrer interrupes no processo, devido  
resistncia do cliente, por exemplo, que insiste e persevera em iluses ultrapassadas ou em exigncias infantis. 
As vezes acontece que o prprio mdico carece da necessria compreenso. Isso aconteceu-me certa vez com 
uma cliente muito inteligente. Por diversos motivos, ela me deixava na dvida. Depois de um comeo 
satisfatrio, foi crescendo em mim a sensao de que a interpretao que eu estava dando aos seus sonhos 
no estava certa. Mas no conseguia descobrir a origem do erro, e por isso tentava persuadir-me de que no 
havia motivos para duvidar. Nas sesses, fui observando que a conversa ia perdendo o interesse, e pouco a 
pouco foi-se instalando a mais estril monotonia. Por fim, 
resolvi comunic-lo  minha cliente, na primeira oportunidade. Segundo me pareceu, ela j o percebera. Na 
noite anterior, tive o seguinte sonho: Eu caminhava por uma estrada que corria por um vale 
iluminado pelo sol eia tarde.  direita, um castelo, no topo de um rochedo ngreme. Em sua 
torre mais alta, havia uma mulher, sentada numa espcie de balaustrada. Para poder divis-
la, tive que inclinar a cabea para trs, a tal ponto que acordei com uma sensao de cibra 
no pescoo. No prprio sonho, reconheci que essa mulher era a minha cliente. 
Tirei a seguinte concluso: se no sonho era obrigado a fazer um tal esforo para poder v-la l no alto, na 
realidade, provavelmente, eu tinha olhado para ela muito em baixo. Quan. do lhe comuniquei o sonho com a 
interpretao, imediatamente a situao se modificou e houve um progresso no tratamento que ultrapassou 
todas as expectativas. Experincias desse tipo ajudam-nos, afinal, a confiar plenamente na seriedade das 
compensaes nos sonhos. Mas no antes de termos pago, e a bom preo, a aprendizagem. 
Todos os meus trabalhos e pesquisas das ltimas dcadas foram consagrados  rica problemtica deste 
mtodo de tratamento. Mas nesta apresentao da Psicologia complexa  gostaria de intitular assim os 
meus ensaios tericos  no pretendo dar mais do que uma orientao sumria, no entrarei aqui em 
pormenores sobre as implicaes filosficas e religiosas, em todas as suas extensas ramificaes cientficas. 
Ao leitor interessado em ampliar os seus conhecimentos, s me resta recomendar a literatura j indicada. 
e designada como PSiclo9ja Analftca Ver T. Wolff, Eia fizhrung in die Gruadlogen der komplexen Psijritologie em Studien zu C. G. Junqs 
Psyclzologie, 1959. 
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